sábado, outubro 29, 2005

Where is the love... ?

"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho umas coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-las. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber.

Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade.

Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra.

O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra.
A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino.

O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não.

Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."


Miguel Esteves Cardoso in Expresso



5 Comments:

At 29 outubro, 2005 12:12, Blogger Pomegranate said...

É triste quando percebemos que não conseguimos amar...
Este amar absurdo que nos faz trepar paredes, que nos torna inconscientes...
É triste quando queremos... e não conseguimos... ou simplesmente temo medo de conseguir e perder como já perdemos uma vez...
Sobrevivemos... perdoa-se, esquece-se o que se sofreu...

Não é chamar loucura a ir do Rato ao Castelo a pé...
Não é loucura andar a sair e a entrar das salas de cinema...
Não é loucura passar 3 horas no Cup só com uma Cola...
Não é loucura... não é amor...

É bem estar... é calma... passividade, deixar andar... esperar que algo cresça... sem me deixar marcar...

Eu gosto... e tu também... só por isso me deixo ficar...
Mas o que quero mesmo é amar...
Passar tempo não enche a alma...
Esvazia-nos a vida de coisas que fazêmos sem coração...

E quando eu amar?... será que vais gostar...?
Não sei... normalmente não!!

Mas eu quero amar!!!
Quero amar!!!

Se não amar não sou feliz... sou feliz... mas nao transbordo!
Quero transbordar... não por momentos, mas sempre...
mesmo que isso implique sofrer...

Não quero que me provoques,
Quero amar!!!

 
At 29 outubro, 2005 12:14, Blogger Pomegranate said...

Amar sem conhecimento...
Loucura, ilusão...
Mas amar...

 
At 29 outubro, 2005 12:23, Anonymous Anónimo said...

esse amor ainda existe... estou certo que sim...

já há mt tempo q n lia um post q me deixasse tao pensativo!

=)

 
At 29 outubro, 2005 22:11, Blogger Reflex said...

Nem 8 nem 80... Apoio mais a ultima frase do XTG do que propriamente o post todo...
Amor puro é 1 semana de loucuras seguida de uma semana da mais pura monotonia amorosa...
Nunca se ser monotono é 1 tremenda monotonia!;)

 
At 29 outubro, 2005 23:26, Blogger Pomegranate said...

Eu sei...
Mas tipo não sentido estarmos com uma pessoa k não nos faz bater o coraçao mais forte...
faz sentido se for mutuo, faz sentido se não houver + ng no baralho a dar em cima e que chame à atenção... faz sentido se esperarmos que o sentimento cresça... eu quero que cresça!! e é esse o meu manifesto... quero sentir o meu coraçao bater +... para que a vida faça mais sentido! E como vcs ja repararam... impaciencia é o "midle name"! lol

***

 

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